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terça-feira, janeiro 02, 2007

Orla

Tinha para aí os seus 11 anos e gostava de apanhar conchas e búzios à borda da água. Eram longas horas à procura dos mais belos exemplares, abundantes apenas naquela zona da costa. Todos os dias.
Como qualquer criança em que o egoísmo pelos seus pequenos tesouros está sempre latente, também ela sentia essa necessidade de proteger os frutos do seu trabalho. Quem lhe pedisse para mostrar, era receosa que ela abria a pequena mão onde guardava, a custo, uma quantidade razoável, tentando não permitir o escape de nenhum. Consoante o raiar do sol, as conchas adquiriam cores variadas, apelativas ao olhar de qualquer um capaz de admirar o belo no pequeno e no insignificante.

Certo dia, lá pelo meio-dia, mais um desses fortuitos visitantes daquele paraíso parou ao pé de si.
- Estás a apanhar conchas?
- Sim.
- Posso ver?
- Hum... pode...

- Posso ficar com duas ou três?
(Ela mordeu o lábio sem saber o que dizer.)
- Está bem - disse a medo.
- Obrigada.

Tirou as maiores, mais difíceis de encontrar, e as mais bonitas. Quando olhou para a mão dele, não entendeu o egoísmo daquele homem. Ele tinha conchas tão mais bonitas que ela! Tão perfeitas! Daquelas que só com uma boa dose de sorte e maré vaga é que se encontram. Porque tinha mostrado? Tanto tempo, e agora ficou sem as melhores...
O que valia é que o tempo não a puxava para mais nada, e então continuou à procura.
No final da praia, a maré tinha deixado a descoberto um caminho entre as rochas, com o intenso cheiro a mar e ilusões que ele nos deixa. O sol espreitava pelas aberturas da rocha, iluminando mais três "pescadores de conchas". Olhou para eles como que a pedir autorização para transgredir a linha imaginária que a separava desse lote.
Agachada, lá continuou a procurar, onde já os outros tinham procurado e sem grande réstia de sorte. Tocaram-lhe no ombro

- Olá, lembras-te de mim?
Era o homem que lhe tinha "roubado" as conchas. Apertou a mão com força e olhou uma possível e rápida maneira de evasão. Não havia.
- Abre as tuas mãos em concha.
O que fazer? Abrir, ou desatar a correr? Se se abrisse um buraco sobre os seus pés, que lhe permitisse fugir sem ter que pronunciar uma única palavra. Abriu as mãos, com aquela sensação de frio desagradável a percorrer-lhe a cabeça, o pescoço e o resto do corpo.

- Obrigada pela tua gentileza. És uma boa pessoa.
E depositou as conchas que lhe tinha tirado previamente, e outras ainda mais belas nas mãos da pequena. Virou as costas e quando esta levantou a cabeça da aura de espanto que a envolveu, já tinha desaparecido.



E se Deus existisse? Se fosse um momento e não uma pessoa?