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segunda-feira, novembro 19, 2007

How stupid are we?

"The world was on fire and no one could save me but you.
It's strange what desire will make foolish people do.
I never dreamed that I'd love somebody like you.
And I never dreamed that I'd lose somebody like you..."

terça-feira, janeiro 02, 2007

Orla

Tinha para aí os seus 11 anos e gostava de apanhar conchas e búzios à borda da água. Eram longas horas à procura dos mais belos exemplares, abundantes apenas naquela zona da costa. Todos os dias.
Como qualquer criança em que o egoísmo pelos seus pequenos tesouros está sempre latente, também ela sentia essa necessidade de proteger os frutos do seu trabalho. Quem lhe pedisse para mostrar, era receosa que ela abria a pequena mão onde guardava, a custo, uma quantidade razoável, tentando não permitir o escape de nenhum. Consoante o raiar do sol, as conchas adquiriam cores variadas, apelativas ao olhar de qualquer um capaz de admirar o belo no pequeno e no insignificante.

Certo dia, lá pelo meio-dia, mais um desses fortuitos visitantes daquele paraíso parou ao pé de si.
- Estás a apanhar conchas?
- Sim.
- Posso ver?
- Hum... pode...

- Posso ficar com duas ou três?
(Ela mordeu o lábio sem saber o que dizer.)
- Está bem - disse a medo.
- Obrigada.

Tirou as maiores, mais difíceis de encontrar, e as mais bonitas. Quando olhou para a mão dele, não entendeu o egoísmo daquele homem. Ele tinha conchas tão mais bonitas que ela! Tão perfeitas! Daquelas que só com uma boa dose de sorte e maré vaga é que se encontram. Porque tinha mostrado? Tanto tempo, e agora ficou sem as melhores...
O que valia é que o tempo não a puxava para mais nada, e então continuou à procura.
No final da praia, a maré tinha deixado a descoberto um caminho entre as rochas, com o intenso cheiro a mar e ilusões que ele nos deixa. O sol espreitava pelas aberturas da rocha, iluminando mais três "pescadores de conchas". Olhou para eles como que a pedir autorização para transgredir a linha imaginária que a separava desse lote.
Agachada, lá continuou a procurar, onde já os outros tinham procurado e sem grande réstia de sorte. Tocaram-lhe no ombro

- Olá, lembras-te de mim?
Era o homem que lhe tinha "roubado" as conchas. Apertou a mão com força e olhou uma possível e rápida maneira de evasão. Não havia.
- Abre as tuas mãos em concha.
O que fazer? Abrir, ou desatar a correr? Se se abrisse um buraco sobre os seus pés, que lhe permitisse fugir sem ter que pronunciar uma única palavra. Abriu as mãos, com aquela sensação de frio desagradável a percorrer-lhe a cabeça, o pescoço e o resto do corpo.

- Obrigada pela tua gentileza. És uma boa pessoa.
E depositou as conchas que lhe tinha tirado previamente, e outras ainda mais belas nas mãos da pequena. Virou as costas e quando esta levantou a cabeça da aura de espanto que a envolveu, já tinha desaparecido.



E se Deus existisse? Se fosse um momento e não uma pessoa?

quinta-feira, março 02, 2006

Ignobilmente ignóbil

"Quase todos se contentam consigo próprios - bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.

Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!...Miseráveis!"



"Só me é permitido ser feliz, não o sendo."



Mário de Sá Carneiro in Céu em Fogo

Todo o tempo do mundo

Tic-tac, tic-tac, tic…tac…taac, taaac.

Menos um dia no pessimismo obsoleto e na verdade contraditória da vida. Acordou, levantou-se a custo, uma tentativa de banho e sentou-se no sofá. Quando chegou a dita hora, cozeu uma petinga e quatro batatinhas com um raminho de salsa e um dente de alho. E tinha todo o tempo do mundo para comê-la. E alguma saudade no olhar, do tempo em que tinha que gritar para conseguir comer em silêncio. Agora, bem que podia gritar, mas o silêncio não se ia embora. Nem o frio da cozinha.

Os calendários antigos sorriem, e é quase como se o tempo não tivesse passado, porque é agora tão lento. E os calendários vão-se acumulando nos preguinhos da parede.
O pó foi ficando nos buraquinhos dos cortinados de rede com motivos florais, e, as manchinhas de ferrugem, comendo o frigorífico, o fogão e a antiga leiteira.
Os retratos são comuns e não raros pelos cantos, para atenuar a saudade, e a solidão. Mas ela pesa tanto! Ela dói. Ela fere!
Queria alguém que a visitasse, que a ouvisse, que lhe desse dois dedinhos de conversa amiúde, ou que venda carinho, nem que seja a granel. E não há ninguém que se lembre, que dispenda dois minutos e que realmente queira estar um pouco com ela.

Dantes, matava as horas com duas agulhas e um fio. Agora já nem consegue ver o fio. Não consegue sentir o frio da agulha. Nem a aspereza do tecido. Nem a pele de alguém que lhe estenda a mão. Porque não há ninguém que olhe por si. Que a veja chorar em silêncio na torturante noite que a persegue, como um castigo após o sol. Porque as noites são tão longas e o silêncio exacerbado para quem nada tem para fazer senão ouvi-lo. Porque dorme pouco.
Frequentemente, uma dor. Contínua, persistente. Desencaminhadora de vontades, de acções. Impedimento.

Amanhã, tudo recomeça. Os dias são iguais. E os sentimentos acabam por ficar guardados na tristeza de um envelope à cabeceira. Perto de um terço de esperanças, e de um rosário de fé. Para quê senti-los, se não pode exprimi-los a alguém? Se as paredes não entram na complacência da sua mágoa. Se a existência é vã. Se antes, quando tudo tinha, nada aproveitava. Agora que tem todo o tempo do mundo, não tem nada para ocupar a mente.
Vê televisão de manhã e socializa à tarde, num café perto, porque as pernas não lhe permitem grandes passeios. Alguns jogam cartas, mas nem esses têm tempo para reparar que ela está ali. De quando, em quando, visitam-na, pessoas que fazem parte do passado. Passam pelo café e deixam um beijinho a esta habitue, porque ninguém se lembra que talvez ela ainda consiga sentir o mar, com um sorriso e um aroma que a inunda de vida. Ninguém se lembra que talvez, ela realmente queira e precise sair dali, dar um passeio com companhia, ter alguém com quem falar.

E estes ainda a invejam, por ela ter, verdadeiramente, todo o tempo do mundo.