Tic-tac, tic-tac, tic…tac…taac, taaac.
Menos um dia no pessimismo obsoleto e na verdade contraditória da vida. Acordou, levantou-se a custo, uma tentativa de banho e sentou-se no sofá. Quando chegou a dita hora, cozeu uma petinga e quatro batatinhas com um raminho de salsa e um dente de alho. E tinha todo o tempo do mundo para comê-la. E alguma saudade no olhar, do tempo em que tinha que gritar para conseguir comer em silêncio. Agora, bem que podia gritar, mas o silêncio não se ia embora. Nem o frio da cozinha.
Os calendários antigos sorriem, e é quase como se o tempo não tivesse passado, porque é agora tão lento. E os calendários vão-se acumulando nos preguinhos da parede.
O pó foi ficando nos buraquinhos dos cortinados de rede com motivos florais, e, as manchinhas de ferrugem, comendo o frigorífico, o fogão e a antiga leiteira.
Os retratos são comuns e não raros pelos cantos, para atenuar a saudade, e a solidão. Mas ela pesa tanto! Ela dói. Ela fere!
Queria alguém que a visitasse, que a ouvisse, que lhe desse dois dedinhos de conversa amiúde, ou que venda carinho, nem que seja a granel. E não há ninguém que se lembre, que dispenda dois minutos e que realmente queira estar um pouco com ela.
Dantes, matava as horas com duas agulhas e um fio. Agora já nem consegue ver o fio. Não consegue sentir o frio da agulha. Nem a aspereza do tecido. Nem a pele de alguém que lhe estenda a mão. Porque não há ninguém que olhe por si. Que a veja chorar em silêncio na torturante noite que a persegue, como um castigo após o sol. Porque as noites são tão longas e o silêncio exacerbado para quem nada tem para fazer senão ouvi-lo. Porque dorme pouco.
Frequentemente, uma dor. Contínua, persistente. Desencaminhadora de vontades, de acções. Impedimento.
Amanhã, tudo recomeça. Os dias são iguais. E os sentimentos acabam por ficar guardados na tristeza de um envelope à cabeceira. Perto de um terço de esperanças, e de um rosário de fé. Para quê senti-los, se não pode exprimi-los a alguém? Se as paredes não entram na complacência da sua mágoa. Se a existência é vã. Se antes, quando tudo tinha, nada aproveitava. Agora que tem todo o tempo do mundo, não tem nada para ocupar a mente.
Vê televisão de manhã e socializa à tarde, num café perto, porque as pernas não lhe permitem grandes passeios. Alguns jogam cartas, mas nem esses têm tempo para reparar que ela está ali. De quando, em quando, visitam-na, pessoas que fazem parte do passado. Passam pelo café e deixam um beijinho a esta habitue, porque ninguém se lembra que talvez ela ainda consiga sentir o mar, com um sorriso e um aroma que a inunda de vida. Ninguém se lembra que talvez, ela realmente queira e precise sair dali, dar um passeio com companhia, ter alguém com quem falar.
E estes ainda a invejam, por ela ter, verdadeiramente, todo o tempo do mundo.
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